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Tribunal de Justiça leva agressores a refletirem sobre violência doméstica

Como mudar uma situação estrutural? Através de debates, conversa e muita reflexão. Essa é aposta do Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) para reabilitar condenados por violência doméstica contra mulheres. Desde 2007, o TJ do Rio, como prevê a Lei Maria da Penha, criou um centro de educação para os agressores como forma de cumprimento da pena. Como uma alternativa à prisão, o juiz pode sentenciar o agressor a participar, de forma obrigatória, do Grupo Reflexivo, que discute a violência de gênero e reeducam os condenados. Nesses dez anos de funcionamento, o Grupo Reflexo já realizou 148 edições com a participação total de 1.461 homens e cinco mulheres. Elas foram condenadas por agressões a familiares. Durante os encontros, que têm oito aulas, os participantes são provocados a refletir e debater sobre temas como a Lei Maria da Penha, as formas de combate à violência, questões e desigualdade de gênero, paternidade e a responsabilização dos fatos ocorridos. Em 2010, Rogério perdeu o controle numa discussão com a namorada. Agindo de forma impulsiva, ele quebrou o carro da mulher. Ele foi encaminhado ao Grupo Reflexivo, que transformou a vida dele e de seus parentes e amigos. Ele disse que, a partir das discussões propostas, passou a refletir sobre preconceitos sociais e modificar certas atitudes. “O grupo me ajudou muito a ter uma nova visão de vida. Hoje eu administro as diferenças, sei ouvir e entender o outro lado. Errar é humano, eu reconheci meu erro e hoje melhorei minhas atitudes. Eu quis aprender, quis mudar e essa oportunidade que o Tribunal ofereceu é muito válida”, avaliou. Pai de três filhos, Rogério disse que o grupo também o ajudou na educação das crianças. Ao destacar uma das sessões que trata do machismo estrutural na sociedade brasileira, ele revelou que ele e a mulher, que sempre conversava com ele sobre os conteúdos dos encontros, passaram a replicar em casa o que era ensinado no grupo. “Minha mulher e eu passamos a ensinar para os nossos filhos os modos adequados de respeitar as pessoas e as diferenças. O grupo foi muito bom até para a minha família, já que agora a gente trata dos problemas de uma forma diferente; mostramos para os nossos filhos a importância do respeito e da educação para que, no futuro, eles não cometam os erros tão comuns na sociedade. A vida é feita de exemplos, e hoje eu acho que posso dizer que sou um bom exemplo para os meus filhos”, afirma. A psicóloga que coordena as atividades, Débora Dias da Costa, avaliou o caráter de prevenção e reflexão do grupo. De acordo com ela, desde o início da iniciativa, não houve casos de reincidência, evidência do trabalho bem feito pela equipe do TJRJ. “No início das atividades, eles não têm entendimento de que o que aconteceu tem a ver com eles. Acham que só reagiram a uma situação. Nós estamos inseridos em uma sociedade desigual e machista. Então não é fácil ter essa percepção. Mas depois nós vamos debatendo, eles têm boa participação. Se a gente consegue estimulá-los a pensar sobre seus atos e seus papéis na sociedade, já é um bom começo”, avaliou. Sessões têm temas definidos O Grupo Reflexivo tem uma metodologia específica já determinada pela equipe técnica, baseada, principalmente, no respeito à persidade, na igualdade e no fortalecimento da cidadania. Cada reunião cumpre um objetivo específico de acordo com os temas designados. O primeiro encontro trabalha sobre o funcionamento do grupo e estabelece as normas que irão conduzir os trabalhos, além de estimular a participação dos integrantes. A segunda reunião discute a Lei Maria da Penha, as formas de violência doméstica e as medidas protetivas concedidas às vítimas. A terceira instiga os participantes a contarem suas histórias a fim de discutir a violência em suas vidas e refletir sobre formas de solução de conflitos sem o uso de práticas violentas. No quarto encontro, os integrantes refletem sobre a construção social de gênero e as desigualdades estruturais da sociedade. O quinto encontro é sobre violência e como preveni-la, tratando de formas de evitar o descontrole em situações desconfortáveis. O sexto trata da paternidade e do cuidado com os filhos. A sétima reunião trabalha o ciclo da violência, apresentando as características de cada fase, como cada participante vivenciou esse ciclo e discutindo como interrompê-lo. No último encontro, os integrantes avaliam suas participações, refletem sobre novas metas na vida e avaliam o trabalho dos grupos nas construções de novos relacionamentos. De acordo com Débora, o crescimento no número de grupos não significa, necessariamente, aumento da violência doméstica. Ela acredita que, a partir da Lei Maria da Penha, as mulheres se sentiram mais amparadas e passaram a denunciar as agressões que antes ficavam escondidas. Mas, para erradicar de vez os casos de agressão, ela pede para que as iniciativas de conscientização e educação ultrapassem o Poder Judiciário e sejam incentivadas em outras instituições. “O trabalho dos grupos é muito importante porque trata da violência já praticada, buscando evitar a reincidência através da reflexão. Mas é preciso um trabalho maior, em escolas e outras instituições para que, desde criança, as pessoas aprendam a respeitar as outras”, afirmou. JGP/JAB
07/12/2017 (00:00)
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